- Jornalismo
- 13 de abril de 2018
STJ tira Geraldo Alckmin da mira da Lava Jato e envia para Justiça Eleitoral
Investigação se baseia em delação da Odebrecht, que diz que tucano teria recebido 10 milhões em caixa dois
O ex-governador paulista e pré-candidato do PSDB à presidência, Geraldo Alckmin, será investigado na Justiça eleitoral de São Paulo. Nesta quarta-feira, o Superior Tribunal de Justiça autorizou o envio para o Tribunal Regional Eleitoral de um processo em que o tucano é investigado. Até o momento seu caso tramitava na corte de Brasília porque ele tinha o foro privilegiado, por ser governador. Como renunciou ao cargo na semana passada para disputar a eleição, ele perdeu essa prerrogativa e agora terá os delitos apurados por instâncias inferiores.
Conforme informações da Procuradoria-Geral da República, há a indicação de que todos os casos envolvendo ex-governadores em que há indícios de pagamento de caixa dois tramitem na esfera eleitoral. A investigação contra o ex-governador iniciou em novembro do ano passado. Ele foi apontado por delatores da empreiteira Odebrecht como o receptor de mais de 10 milhões de reais, em caixa dois, nas campanhas eleitorais de 2010 e 2014, quando concorreu e foi eleito ao cargo de governador.

PSDB respira aliviado com processo fora da Lava Jato – Foto: Internet
Inicialmente, os onze procuradores da força-tarefa da Lava Jato em São Paulo haviam solicitado que os casos envolvendo Alckmin fossem enviados a eles. Mas o vice-procurador-geral da República junto ao STJ, Luciano Mariz Maia, decidiu que as investigações tinham caráter eleitoral. Portanto, retirou o tucano da mira da operação Lava Jato, ao menos por ora. A decisão que atendeu ao pedido do vice-procurador foi da ministra do STJ Nancy Andrighi, a relatora do caso na corte.
Em resposta ao pedido dos procuradores da Força Tarefa, Mariz Maia informou que não encontrou, até o momento, nenhuma vinculação da investigação contra Alckmin com os crimes apurados pela Lava Jato. Os procuradores locais, contudo, poderão solicitar o compartilhamento de provas.
Se for condenado no Tribunal Regional Eleitoral por supostos delitos cometidos na campanha para o Governo de 2014, Alckmin corre o risco de ser impossibilitado de disputar as eleições deste ano, de acordo com previsto na lei da Ficha Limpa. “Falando em tese. Se ele for condenado e o TRE entender que é o caso de declará-lo inelegível, pode fazê-lo”, afirmou o advogado eleitoral Walber de Moura Agra. Ao menos outras duas pessoas são investigadas nesse mesmo processo. São elas: o cunhado de Alckmin, Adhemar Cesar Ribeiro, e Marcos Monteiro, ex-secretário de Planejamento do Estado.
Sempre que se manifestou sobre essa investigação, o ex-governador paulista disse que todas as doações para suas campanhas foram legais e registradas perante a Justiça eleitoral.
Delator: propina para Alckmin era descontada de contratos do Estado
A decisão de que o caso de Alckmin seja encaminhado para a Justiça Eleitoral muda o status dos crimes a que ele pode eventualmente responder. Na Justiça Eleitoral, trata-se de crime de caixa 2, que não está tipificado no Código Penal, mas que pode se enquadrar em lavagem de dinheiro (já que a verba recebida não teria sido declarada). No âmbito penal, no entanto, ele poderia chegar a responder por corrupção. Não se sabe o que há no processo, que corre em sigilo, mas ao menos um delator chegou a dizer que a propina que supostamente destinada ao então governador de São Paulo era descontada de obras estaduais, como o metrô.
Uma das dezenas de delatores da Odebrecht foi o responsável pelo contrato de construção da Linha 6 do Metrô de São Paulo, Arnaldo Cumplido de Souza e Silva. Ele disse aos procuradores no ano passado que era o encarregado de liberar o pagamento de caixa dois para a campanha de 2014. Questionado pelos investigadores se o pagamento tinha relação com a obra do Metrô, ele diz que não havia “uma relação de causa e efeito com a obra”. Afirmou, no entanto, que a propina era registrada na empresa como custos de contratos com o Governo estadual. “Se era um apoio para a campanha do Governo do Estado de São Paulo, teoricamente esses valores sairiam dos custos das obras do Estado de São Paulo. Isso era registrado gerencialmente neste custo”, afirma.