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Londrina: 50 anos da geada que devastou o café e mudou a economia

Triste episódio deixou um rastro de destruição que transformaria para sempre a economia da região.

Imagem: Reprodução

Em julho de 1975, uma das geadas mais severas já registradas no Brasil cobriu de gelo os cafezais do Norte do Paraná, deixando um rastro de destruição que transformaria para sempre a economia da região. O fenômeno climático, conhecido como “geada negra”, destruiu mais de 60% dos 1,8 milhão de hectares plantados com café no estado — e Londrina, então considerada a “capital mundial do café”, foi um dos municípios mais atingidos.

Na época, o Paraná respondia por quase 50% da produção nacional de café, com Londrina entre os principais polos produtores. Os cafezais se estendiam por toda a zona rural e sustentavam milhares de famílias, pequenos e grandes produtores, trabalhadores sazonais e empresas ligadas à cadeia cafeeira. A geada de julho foi tão intensa que congelou as folhas e os galhos das plantas, fazendo com que os pés de café morressem mesmo sem formar cristais visíveis — daí o termo ‘geada negra’.

Imagem: Reprodução

Impactos em Londrina

Logo após o fenômeno, as lavouras secaram quase que instantaneamente. O cenário descrito por muitos à época era de árvores queimadas pelo gelo, transformando as plantações em campos escuros e silenciosos. Em Londrina, além do prejuízo econômico imediato, os efeitos sociais foram profundos: famílias inteiras deixaram a Zona Rural em direção à cidade ou migraram para outras regiões.

Houve desemprego em massa, fechamento de armazéns, torrefações e cooperativas, além de uma quebra significativa na arrecadação municipal.

Imagem: Reprodução/MIS

A geada de 1975 marcou o fim do ciclo do café como carro-chefe da economia londrinense. A cidade precisou reinventar-se — e a diversificação agrícola foi uma das saídas encontradas. “A diversificação das culturas foi um fato importante que presenciei”, relembra Eugênio Stefanelo, então diretor do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura do Paraná.

O próprio governador da época, Jaime Canet Junior, já previa o desastre e colocou servidores de prontidão na noite anterior. “Pela marcha da temperatura, os cafezais terão um grande baque”, alertou Stefanelo, com precisão.

O que veio depois

Nos anos seguintes, a soja, o milho e outras culturas tomaram o lugar do café. A horticultura ganhou força e a produção de proteínas animais, como frangos e suínos, passou a ocupar espaço crescente. O café, embora não tenha desaparecido, nunca mais teve o protagonismo de outrora: na década de 1990, o Paraná já respondia por menos de 10% da produção nacional e hoje representa apenas 1%.

Imagem: Reprodução/AEN

Atualmente, o café paranaense se destaca em nichos de qualidade. A estimativa do Deral para a safra de 2025 é de 718 mil sacas, produzidas em 25,4 mil hectares. O Norte é a principal região produtora e já conquistou Indicações Geográficas (IGs), como as de Carlópolis e Mandaguari.

Caminhos atuais e o futuro

Além da busca por qualidade, muitos produtores investem em iniciativas de turismo rural e venda direta ao consumidor, como ocorre no projeto “Mulheres do Café”, apoiado pelo IDR-Paraná. A verticalização da cadeia tem ajudado pequenos produtores a obter melhores rendimentos e manter viva a tradição do café no estado.

“Cada vez mais os cafés do Paraná buscam uma diferenciação, visto que a produção em grande escala dificilmente voltará a ser a regra”, afirma Godinho.

Londrina, que já viveu a glória e a ruína do café, hoje celebra 50 anos de superação, aprendizado e adaptação a uma nova realidade econômica, marcada pela resiliência de seus produtores e pela capacidade da região de se reinventar.

Redação Tem Londrina


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